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Geografia • Ensino Médio

O espaço geográfico e o mundo digital

Participar de um jogo on-line com pessoas de diferentes lugares, realizar chamadas por vídeo com jovens de outros países, mobilizar grupos em poucas horas para uma manifestação, publicar vídeos que podem ser vistos em qualquer parte do planeta e receber notícias em tempo real mostram algo novo na vida contemporânea: hoje vivemos relações e experiências sem estar fisicamente no mesmo lugar.

Se muitas dessas ações acontecem sem presença física, surge uma pergunta fundamental para a Geografia: isso ainda pode ser chamado de espaço geográfico? Ou estamos vivendo em um “mundo virtual” separado do espaço real?

Questão central: o mundo digital substituiu o espaço geográfico ou apenas transformou a forma como ele é usado?

1. O que é espaço geográfico?

O espaço geográfico é o resultado da relação entre a sociedade e a natureza. Ele é construído historicamente pela ação humana, por meio do trabalho, da técnica, da ciência, da política e da cultura. Cidades, estradas, plantações, portos, fábricas, redes de energia e comunicação fazem parte desse espaço.

Portanto, o espaço geográfico não é apenas o cenário onde a vida acontece: ele é produzido e transformado continuamente pelas ações humanas.

2. O cotidiano digital e a mudança nas relações humanas

Hoje, essas práticas fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas que acessam a internet, a rede mundial que interliga computadores, celulares e outros aparelhos eletrônicos. No entanto, esse avanço também trouxe mudanças importantes: o contato físico e o diálogo presencial diminuem, as cidades deixam de ser tão vivas como espaços de encontro, e muitas pessoas passam longos períodos no mesmo lugar, comunicando-se apenas por meio de máquinas.

Assim, cria-se a sensação de que o espaço foi “reduzido” e que a mobilidade, em muitos casos, tornou-se mais virtual do que real.

3. Redes sociais: novidade ou velha forma de convivência?

As redes sociais não são uma invenção recente de grandes empresas de tecnologia. Elas sempre existiram nas diferentes sociedades como grupos de pessoas ligadas por laços familiares, de amizade, profissionais ou por interesses comuns. O que mudou, portanto, não foi a existência das redes, mas a forma como elas passaram a funcionar, cada vez mais mediadas por tecnologias digitais.

Se essa forma de convivência totalmente virtual passar a ser vista como normal, corre-se o risco de construir uma sociedade cada vez mais isolada, com menos atividades físicas, menos convivência presencial e empobrecimento da vida social.

4. Um mundo mais conectado… e um espaço cada vez menor?

Com a internet, as redes sociais virtuais passaram a conectar bilhões de usuários em diferentes lugares do mundo. Ao mesmo tempo, esse processo também potencializou diversos riscos, como invasão e exposição da privacidade e usos criminosos da rede, incluindo fraudes bancárias, casos de pedofilia e declarações racistas.

Paralelamente, observa-se outra transformação importante: nas grandes cidades, o espaço físico disponível para viver parece cada vez menor. Apartamentos tornam-se menores e mais caros, enquanto cresce a desigualdade social e territorial. Assim, ao mesmo tempo que o “mundo virtual” se expande, o espaço vivido por muitas pessoas se reduz.

5. O espaço geográfico na escala mundial

O acesso à internet e às redes sociais virtuais oferece importantes pistas sobre a organização do espaço geográfico mundial na atualidade. A partir da leitura de mapas e gráficos, surgem diversos questionamentos: por que determinadas regiões do mundo concentram mais cabos submarinos? Por que a África é o continente com os menores percentuais de usuários de internet? O que explica o grande número de conexões entre alguns países e continentes?

Mapa temático: indivíduos usando a internet em porcentagem da população, com variações por região do mundo.
Figura — A internet no mundo (distribuição desigual).
Observe que regiões com maior renda e infraestrutura técnica tendem a apresentar maiores percentuais de usuários,
enquanto diversas áreas da África e partes da Ásia e da América Latina aparecem com índices menores ou com ausência de dados.
Mapa ilustrativo para fins didáticos. Elaboração: Centro de Ciências Humanas (CCH).

Essas perguntas revelam que o espaço mundial é profundamente desigual e que a técnica não se distribui de forma equilibrada pelo planeta.

6. O meio técnico-científico-informacional

As respostas a essas questões passam pelo entendimento da produção do chamado meio técnico-científico-informacional, resultado da integração entre ciência e técnica, que possibilitou o intenso fluxo de pessoas, mercadorias, capitais e informações.

Esse meio geográfico é composto por elementos materiais muito concretos, como as fibras ópticas que formam os cabos submarinos, o Sistema de Posicionamento Global (GPS), as antenas de telefonia celular, os prédios inteligentes e diversos outros equipamentos e tecnologias.

Não se pode negar que esse avanço científico e tecnológico transformou profundamente o mundo. No entanto, ele também trouxe novas contradições: a sociedade tornou-se cada vez mais vigiada e a privacidade, inclusive em comunicações telefônicas e digitais, passou a ser constantemente ameaçada.

7. Técnica, desigualdade e exclusão

É necessário adotar um olhar crítico sobre os avanços das tecnologias digitais de informação e comunicação, questionando a profunda desigualdade social, econômica e tecnológica existente entre os países e também no interior deles.

Apesar de todo esse crescimento técnico, ele não alcança todos os lugares do mundo. Existem regiões sem condições financeiras, de difícil acesso ou simplesmente abandonadas pelas políticas públicas. No próprio Brasil, isso pode ser observado em áreas do interior da Amazônia e de outras regiões afastadas dos grandes centros, onde vivem populações que muitas vezes permanecem “invisíveis” para o restante da sociedade.

8. Conclusão: o espaço acabou?

O espaço geográfico não deixou de existir. O que ocorreu foi uma profunda transformação em sua forma de uso, organização e controle. Ele se tornou mais técnico, mais rápido e mais conectado, mas também mais desigual, mais controlado e mais contraditório.

A técnica aproxima lugares, mas não resolve, por si só, os problemas sociais. Por isso, compreender o espaço geográfico no mundo digital exige não apenas conhecer as tecnologias, mas também refletir criticamente sobre quem se beneficia delas e quem permanece à margem desse processo.

Síntese: o mundo digital não substituiu o espaço geográfico — ele o transformou e aprofundou suas desigualdades.

Habilidades da BNCC (sugestão)

  • EM13CHS102 – Analisar transformações do espaço geográfico a partir da técnica, da ciência e da informação.
  • EM13CHS104 – Avaliar os impactos das tecnologias nas relações sociais e na organização do território.
  • EM13CHS106 – Interpretar desigualdades socioespaciais em diferentes escalas.

Fontes e referências

  • SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp.
  • SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-informacional. São Paulo: Hucitec.
  • SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record.
  • CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra.
  • HAESBAERT, Rogério. O Mito da Desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
  • CORRÊA, Roberto Lobato. Região e Organização Espacial. São Paulo: Ática.
  • IBGE. Atlas Geográfico Escolar. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
  • BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Ministério da Educação.

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Espaço geográfico, Mundo digital, Meio técnico-científico-informacional, Globalização, Redes, Geografia, Ensino Médio, Desigualdade socioespacial, Milton Santos, Técnica e território

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